Mapeamento de terreiros fortalece combate à discriminação racial e resgata a memória negra de Maracanaú

No Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, celebrado em 3 de julho, uma iniciativa desenvolvida em Maracanaú evidencia como produzir conhecimento também é uma forma de enfrentar o racismo. O mapeamento cultural dos povos de terreiro do município identificou dezenas de espaços de religiosidade afro-brasileira, rompeu com a invisibilidade histórica dessas comunidades e fortaleceu sua organização coletiva.

Realizada entre dezembro de 2024 e março de 2025, a pesquisa visitou 24 terreiros e identificou uma ampla diversidade de manifestações religiosas presentes na cidade, como Umbanda, Candomblé, Quimbanda e Jurema. No entanto, segundo os pesquisadores, esse número representa apenas parte da realidade local. A estimativa é de que Maracanaú possua entre 40 e 50 terreiros.

“Ouvíamos com frequência que em Maracanaú não existiam povos de terreiro. O mapeamento mostrou justamente o contrário: eles existem, resistem e fazem parte da história da cidade”, explica a ativista do movimento negro Virgínia Ramos, integrante do coletivo Maloka Ancestralidades.

O projeto nasceu das rodas de conversa promovidas pelo coletivo, formado por pessoas negras, educadoras e artistas que discutem ancestralidade, cultura afro-brasileira e políticas públicas. A ausência dessas comunidades nas ações do poder público e a constante negação de sua existência motivaram o início da pesquisa.

Para o professor Wellington Soares, um dos coordenadores do projeto, o levantamento também dialoga com um dado importante: segundo o Censo do IBGE, cerca de 73% da população de Maracanaú se declara preta ou parda. Apesar disso, a cidade ainda não reconhece plenamente sua identidade afro-brasileira.

“Existe uma população majoritariamente negra, mas sem pertencimento às suas expressões culturais. A cultura afro-religiosa pulsa em Maracanaú, mas continua invisibilizada no currículo escolar, nos materiais didáticos, nas políticas públicas e até no calendário oficial do município.”

Segundo Wellington, a pesquisa também revelou como muitos terreiros permanecem invisíveis por necessidade de proteção.

“No Candomblé é mais comum encontrar uma identificação na fachada. Já na Umbanda, muitas vezes são casas simples, onde o terreiro funciona no quintal. Você identifica pelas plantas na entrada, pelo boca a boca. Quando entra, encontra verdadeiros patrimônios culturais.”

Além de mapear os espaços, a pesquisa registrou relatos sobre violações de direitos enfrentadas pelas comunidades tradicionais. Virgínia destaca que muitos terreiros encontram dificuldades para exercer plenamente a liberdade religiosa.

“Enquanto outras religiões conseguem realizar celebrações durante toda a madrugada, muitos terreiros enfrentam restrições de horário e dificuldades para conseguir autorizações. Muitas vezes, sequer são reconhecidos como espaços religiosos pelos órgãos públicos.”

Ela também chama atenção para o racismo estrutural presente no acesso às políticas públicas.

“Quanto mais retinta é a pessoa, maiores costumam ser as barreiras para acessar direitos. Isso também aparece dentro da realidade dos povos de terreiro.”

A pesquisa ganhou ainda mais significado porque surgiu após Wellington sofrer um episódio de intolerância religiosa na escola onde trabalha, em Maracanaú. O episódio reforçou a necessidade de tornar visível uma população frequentemente alvo de preconceito e discriminação.

Para os pesquisadores, combater esse cenário passa também pela educação. Virgínia defende que a história das religiões de matriz africana seja trabalhada nas escolas como patrimônio cultural, conforme determina a legislação sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira.

“Estudar os itãs, os orixás e a mitologia africana não é ensinar religião. É ensinar História. Da mesma forma que estudamos a mitologia grega, precisamos conhecer as matrizes culturais que formaram o povo brasileiro.”

O impacto do projeto ultrapassou a produção da pesquisa. Após a conclusão do levantamento, foi realizado o 1º Encontro dos Povos de Terreiro de Maracanaú, reunindo lideranças religiosas, representantes do movimento negro e pesquisadores para apresentar os resultados e fortalecer a articulação entre as comunidades.

A iniciativa deu origem a um grupo permanente de organização dos povos de terreiro, que passou a realizar reuniões mensais, construir pautas coletivas e promover ações conjuntas em defesa da liberdade religiosa, da valorização da cultura afro-brasileira e do enfrentamento ao racismo.

O mapeamento integra um conjunto de pesquisas desenvolvidas pelo coletivo Maloka Ancestralidades, que busca resgatar a memória negra de Maracanaú e questionar narrativas históricas que invisibilizaram a presença da população negra na formação do município.

“Maracanaú vive uma narrativa que começa apenas com sua emancipação política. Mas existe uma história muito mais antiga, marcada pela presença indígena e negra, pela escravidão, pelas resistências e pelas ancestralidades. Nosso trabalho é mostrar que essa história existe, está viva e precisa ser reconhecida”, conclui Wellington.

Neste 3 de julho, o mapeamento reafirma que combater a discriminação racial também significa reconhecer os territórios negros, valorizar suas memórias e garantir que a história de Maracanaú seja contada por inteiro. Afinal, o que permanece invisível dificilmente se torna alvo de políticas públicas, proteção e direitos.